sexta-feira, 25 de junho de 2010

O passado como futuro


"Ao assistir a liquidação de seus sistemas
de referência, no colapso de seus regimes culturais,
 só resta ao nativo concluir que tinha razão o seu conquistador quando lhe dizia:
‘não adianta chorar que Deus não está do seu lado’.” (Frantz Fanon)


Introdução
Frantz Fanon, esse psiquiatra afro-caribenho que teorizou os efeitos nefastos da alienação colonialista, já se insurgia, há mais de 50 anos, contra a tendência de se intepretrar o racismo como um fenômeno natural de convivência entre humanos. Para ele, o racismo não é um fenômeno natural, nem uma disposição psicológica ou mental. É uma forma de discriminação social que anda de mãos dadas com a aniquilação cultural, a dominação política e a opressão militar dos povos colonizados no contexto da exploração econômica capitalista do homem pelo homem, do Terceiro Mundo pelos países metropolitanos. Historicamente, a partir da ascensão do capitalismo, o racismo tem desempenhado um papel vital nesse sistema. Ele prestou e continua a fornecer a justificativa para o genocídio cometido contra os povos que ofereceram qualquer resistência ao avanço do mundo do consumo como valor em si.
         Sob a ideología de missões civilizatórias, justificaram-se, ontem e hoje, a intervenção brutal e direta nos países de cultura não alinhável ao unificador projeto de converter o mundo inteiro em um imenso shopping center. Qualquer nação que ousasse - ou ouse - não aceitar espelhos, apitos ou mcdonalds em troca de suas almas, possui caráter de selvagem, é racialmente decadente e pode ser eliminada.
         È por isso que Fanon não admite que o racismo seja algo incosnciente. O racismo tem método. O racismo é o método. É um método de exploração, dominação, subjugação e desumanização. Está em todas as partes para cumprir sua missão nefasta de justificar as novas guerras a que assistimos neste início de milênio, - que nada mais são do que as velhas guerras do século XX, sob novas roupagens: a ancestral luta para monopolizar os recursos naturais e o acesso a mercados estratégicos. Mas, sob o disfarce do racismo, são "pessoas denegeradas" que são o alvo do combate (terroristas, fundamentalistas, genocidas e atrasados de toda ordem), - e assim se esconde a correta inferência de que qualquer barbárie seria tolerada se fosse conveniente aos interesses dos países mais ricos; e que qualquer cultura torna-se bárbara se não estiver apta a se tornar mercadoria.

Zeitgeist
Na dinâmica do processo de descolonização dos países africanos dos anos 50 e 60 do século passado, resultante inesperada da Guerra Fria, respirou-se um ar de mudança. O Zeitgeist global (o clima intelectual da época) oscilava, então, entre a idéia de que seria possível uma coexistência pacífica entre os diferentes blocos de países e uma idéia mais radical de que seria possível uma ruptura emancipatória com toda a cultura da violência e desumanidade que marcou o início e meado do século XX.
        O termo "Zeitgeist ", criado pelo romantismo alemão, refere-se ao sentido que perpassa uma época, tal como reflectido nas idéias, opiniões, correntes intelectuais , pensamentos filosóficos e visões de mundo que a caracterizam. Para Hegel ninguém pode "escapar" do zeigeist, já que tal espírito e o próprio espírito de quem vive na história de um dado momento se confundem. Em termos marxistas, o zeitgeist é a resultante cultural, política, ideológica e psiquica dos processos de produção material da existência. Assim, o zeitgeist do capitalismo é o liberalismo e a crença de que a livre-concorrência (entre pessoas e pessoas, coisas e coisas e entre coisas e pessoas) e o ato de atribuir valor monetário a tudo o que existe (de ìnfimas coisas a pessoas) civilizarão o mundo.).

Qual é o nosso Zeitgeist?
Se tentarmos capturar o Zeitgeist de nossa época, diríamos que ele começou a se formar na virada deste século e sua esperança de deixar para trás as guerras quentes e frias que marcaram o século XX. Mas as particularidades deste Zeisgeist que a partir de então vai se formando é desalentadora e repetitiva. È um zeitgeist cognitivamente atento mas moralmente apático. Tal espírito pode ser traduzido na idéia de que sabemos que as bases materiais, éticas e políticas de nosso mundo estão equivocadas e anunciam novas tragédias, mas, apesar disso, por razões práticas, conveniencias pessoais ou simples desânimo, não estamos dispostos a fazer nada de consistente para mudá-las. A reclamação atomizada, a depressão epidêmica e os prazeres de compras tornaram-se nosso zeitgeist moral.
         Vivemos a contradição: por um lado, nunca antes na história foi tão fácil perceber o iminente colapso do capitalismo em escala mundial e, por outro lado, nunca antes na história foi tão difícil de romper o véu que cobre os cinco pilares sobre os quais esse mundo de desumana produção de supérfluos e criminosa destruição do necessário acha-se assentada: a exploração econômica, dominação política, discriminação social, o genocídio, o militarismo e a alienação humana .
         Mas entorpecidos pela esperança de que, no rolar dos dados, o cassino do sistema financeiro mundial poderá premiar a todos, e que nossos problemas serão, então, compensados por uma inesperada lotería, permenecemos fazendo do vício ideológico - da crença em uma mudança sem nossa participação – nosso ethos e no pathos.
           Pior do que não entender as coisas é não agir sobre elas com tal entendimento.

Velhas e novas guerras
Novamente, terminada a primeira década do novo milênio, estamos diante de um choque de forças globais sobre regiões marginais e a repartição gananciosa do mundo. Velhos e novos poderes (EUA, União Europeia, Rússia e China), em configurações que variam entre a cooperação e a confrontação, estão em polvorosa pois o acesso a mercados e recursos naturais, tornou-se questão de vida e morte, como é o caso do petróleo, da biodiversidade e da água. A corrida desesperada é por uma espécie de "recolonização" das principais regiões do planeta, ricas em recursos naturais e localizados em países da África , Ásia e América Latina.
      As razões que legitimariam as estratégias dos países ricos para dominar e conservar em seu controle os recursos naturais do Terceiro Mundo são as supostas ameaças de nosso tempo: o terrorismo, as armas de destruição em massa e os chamados "Estados falidos" - produto, supostamente, de gestão ineficazes seus respectivos governos.
      As razões ideológicas por trás desse tipo de política não são mais que uma reedição do velho argumento colonialista-racista que sustenta a inferioridade dos povos do Terceiro Mundo, com o qual restaría justificado o condutivismo moral do Ocidente contra as forças da barbárie da periferia.
      Enfim, entramos num novo século com velhos problemas e falsos espíritos. Como um fantasma de vilão preso à cena de seu crime, não conseguimos lançar nossos espíritos para o futuro até que acertemos as contas com o passado.
     Enquanto a impotência se fizer carne, nosso zeitgeist não poderá descansar em paz. 
Franz J. Lee
Sandro Sell

7 comentários:

  1. Marco Antônio Preis25 de junho de 2010 14:48

    Ótimo texto. No entanto, o processo de descolonização há de ser mais profundo: a começar pela libertação do pensamento (epistêmico) eurocêntrico; da superação da reflexão (limitada) a partir de categorias predeterminadas pelo centro - ficar procurando o “nosso” Zeitgeist ou coisas do tipo... Nós, periféricos, somos capazes de pensar fora, para além, das pautas ditadas pelo eurocentrismo (científico?). Essa é nossa riqueza. Mas o caminho é esse mesmo. Forte abraço.

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  2. Muito bom seu texto professor. Abraço, Luís Felipe Correa

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  3. "Qualquer nação que ousasse - ou ouse - não aceitar espelhos, apitos ou mcdonalds em troca de suas almas, possui caráter de selvagem, é racialmente decadente e pode ser eliminada."

    Muito bom. Nos faz rever muitos conceitos!

    Abraço

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  4. Marco: seu comentário intelectualmente provocativo, me faz retornar ao sentido do seu questionamento: podemos pensar a nós mesmos sem as categorias - eurocêntricas por certo - que nos formaram? Não podemos fazer uma apreensão seletiva de tais categorias? Penso que sim. Mas quanto ao "Zeitgeist", sua crítica é certeira e bem aceita: nunca gostei (pessoalmente) desse termo, mas o assumi aqui (pensei que não chamaria atenção).
    Acreditando que você escreveria um bom texto sobre isso (e nos daria a honra de postar aqui), retribuo o abraço.
    Murilo e Luís, obrigado pelos elogios.
    Abraço, Sandro

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  5. Marco Antônio Preis28 de junho de 2010 10:53

    É, ainda não perdi esse (belo) costume de ser provocativo. Hehehe. Estás coberto de razão (penso que, em geral, temos mais convergências que divergências). Não só podemos como devemos fazer uma apreensão seletiva das categorias. Para ser mais completo, a “nossa” riqueza a que me referi inclui essa capacidade de enxergar desde fora e para além da (pseudo-)“totalidade” (dialética?) e que torna possível a perspectiva anadialética proposta por Enrique Dussel. Aliás, é dele que busco a reconstrução histórica da primeira e da segunda modernidades, a partir da ruptura do universalismo de Hegel. Isso foi o que mais me incomodou na leitura. É, costumo ser meio atrevido também. Hehehe. A clivagem operada pela desobediência epistêmica (seguindo o fluxo do sistema-mundo de Wallerstein e da contextualização geopolítica de Walter Mignolo) dá-se justamente com a ruptura do pensamento linear de pretensões universalistas de Hegel, seu “Zeitgeist” e toda a sua herança (que nem tudo se aproveita na “minha” apreensão seletiva). É por essas e outras (heranças apreendidas) que quando se estuda história do direito penal brasileiro, por exemplo (vamos puxar nossa sardinha), costuma-se traçar uma linha reta do direito romano-canônico aos dias de hoje, passando por ordálias et cetera, sem se dar conta de nossos caracteres mais marcantes: o disciplinamento de regimes de exceção, o direito penal doméstico (Nilo Batista) entre outros. No mais, agradeço a consideração e o espaço. Abração. P.S.: Sinto falta do Professor Roberto nesse blog...(mais uma provocação?).

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  6. Não sou acadêmico, tudo que sei de zeitgeist vem de um documentário de procedência duvidosa difundido na internet. Mas concordo especialmente com Marco Preis no tocante ao eurocentrismo. Essa hegemonia e a sua contraparte, o americanismo, atingiram seu ápice nos sécs. XIX e XX e agora estão em franco (não por acaso is to lembra França!) declínio. O Brasil, como gigante periférico, tem um papel de protagonista na transição da chamada nova ordem mundial. Principalmente por se tratar da nação emergente de melhor conjugação dos fatores social, econômico e institucional.

    Por ora, vamos torcer - e mandar o Chile de volta pra cá, pra Sudamerica.

    Abs!

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  7. Marco, pois então as convergências são maiores mesmo. Sobretudo no que se refere ao modo ortodoxo com que é ensinado a história do Direito penal (no pior estilo "história da crueldade das penas: período da vingança privada... período humanitário!" Bah,isso ainda é ensinado assim!)
    Seria obviedade, no entanto, lembrar que toda história repousa sobre uma filosofia da história (seja pensada como progressista, cíclica, feita de rupturas ou como dispositivos que emergem de micropráticas).
    Em relação ao quanto que Habermas ou Dussel romperam com a tradição eurocêntrica, das grandes narrativas e da concepção de sujeito da modernidade, e permitiram um reinvinetar da história - plural, tolerante e dialógica - preciso sinceramente de mais décadas para poder analisar seu impacto. Quem está no meio do terremoto jura sempre que este foi o maior rompimento que as placas tectônicas já realizaram (quem diria que Marx seria visto como um hegeliano ingrato? - e que Maquievel seria um camarada de Gramsci?)!
    Mas, compartilho também o gosto pelos autores citados. (o zeitgeist apareceu como um fantasma no discurso de um texto de coautoria).
    E o Christian tava certo mesmo: Chile fora, que venha a Holanda!

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