sexta-feira, 2 de julho de 2010

A filosofia do espelho

Ser é ser percebido.
Essa frase de George Berkeley sempre me perturbou. Ser é ser percebido, ou seja, nada existe fora da percepção. A existência dos seres no mundo depende do fato de que alguém os esteja notando. Se ninguém notar, eles não existem.
Se os idealistas berkelianos estiverem certos, o mundo humano é, então, semelhante a um sonho, se pararmos de sonhar (perceber onírico), toda aquela “realidade” que nos encantava, agoniava, excitava ou apavorava desaparece imediatamente.
O que reflete o espelho quando ninguém o está vendo?
Refletiria as coisas que estão à sua frente? Não, ele refletirá as "coisas" habituais apenas se um humano olhar para ele. Loucura? Em termos práticos, parece. Mas se você pensar que as coisas como as percebemos são o resultado da “leitura” que nossos sentidos fazem delas, a afirmação começa a fazer sentido. O espelho do daltônico não faria distinção entre verde/vermelho; o do cão não atribuiria às coisas à maior parte de suas cores; o da anoréxica mostraria gordura onde outros só veriam pele e osso. Isso ocorre porque o espelho não reflete as “coisas”, ele reflete, isto sim, a “nossa percepção” das coisas. Logo, nada parecido com o que vemos no espelho pode estar nele sem alguém que o perceba.







**espelho de anoréxica, mentiroso. Mas qual não é?**




“Ah”, diz você, “mas as pessoas normais verão todas as mesmas coisas!” Se é que existem coisas além da percepção, o que você está chamando de normal são as pessoas que possuem uma percepção semelhante à maioria das outras. Anoréxicas, cães e daltônicos não são os normais para o caso. Mas se o daltonismo fosse a regra entre humanos, quem não o fosse seria acusado de imaginar distinções de cores inexistentes na “realidade”. Em terra de cego –dizia Marceu Mauss – quem tem um olho só é aleijado! Não, a vantagem dos “normais” não está em perceberem corretamente (em relação à realidade das coisas), mas só em perceberem da forma socialmente normatizada para cada funcionalidade social (homens não vêem a metade das coisas que as mulheres vêem em seus espelhos!). E o socialmente útil não significa essencialmente verdadeiro.
Assim, uma pessoa que não visse as coisas invertidas no reflexo do espelho (o lado esquerdo tornando-se direito e vice-versa) como fazemos, veria uma imagem mais próxima da “realidade” do que a nossa, e seu espelho mostraria – para ele – uma outra imagem. Da mesma forma, quem tivesse uma visão tão potente quanto um microscópio, veria no espelho um mundo bastante distorcido em relação ao nosso habitual (ele logo teria que adquirir um espelho que diminuísse sua capacidade, sob pena de enxergar milhares de ácaros na sua face, ao invés de a barba por fazer). Que espécie de visão reflete exatamente o mundo lá fora?
Se há um mundo lá fora, não podemos saber, - a não ser com ajuda do nosso cérebro que, na melhor das hipóteses, filtra ao seu capricho à realidade que lhe chega e, na pior, cria a própria "realidade" que jamais existiu. Mas como não podemos ir lá fora sem nós mesmos, estamos condenados a viver sem saber se nosso mundo é uma conspiração da matrix ou a realidade em si é isso que de fato nos parece ser. Como dizia Wittgenstein: “não é possível sair da própria pele, analisar nossas práticas de um lado, o mundo do outro e voltar para comentar essa relação.”
Voltemos ao espelho.
 Aí você diz: “tudo bem, mas alguma coisa é refletida, ainda que nunca venhamos a saber exatamente o que é!” Bem, a nossa questão não era apenas se alguma coisa estaria sendo refletida na ausência de expectadores, mas se o espelho refletiria aquilo que ele habitualmente reflete, aquilo que faz com que o tenhamos instalado no móvel.
Fantasmas.
Durante boa parte da infância, eu acreditava que os espelhos solitários na casa germânica da minha avó paterna podiam refletir fantasmas, almas de meus antepassados, - em geral com intenções mesquinhas e vingativas, porque havíamos descoberto no sótão seus velhos vestidos e moedas. E, de fato, muitos de nós (primos) acabamos vendo tais almas. Ilusão? Talvez... mas bobagem? Não sei. Só sei que se ser é ser percebido, aquilo que é percebido, ainda que erroneamente, ganha vida. Como argumenta a criança apavorada pelo pesadelo que a acordou: "como pode ser falso um monstro que me deixou assim?" (e pega a mão da mãe e põe sobre seu coraçãozinho saltitante). O monstro de pesadelo é tão real que pode enfartar o cardíaco enquanto dorme.
(e se a realidade não passasse de um sonho coletivo? - questionava-se Descartes, nas suas Meditações).
Por uns momentos, a ilusão compartilhada entre primos criou fantasmas, ressuscitou antepassados, povoou o sótão de assombrações. Quando crescemos, os estudos, a ciência, a razão, essas outras ficções, nos proibiram de ver tais coisas (de fato, só os que não foram à universidade continuaram percebendo...). E então – em tardias racionalizações - vultos no espelho tornaram-se apenas distorções provocadas, quem sabe, por alguma luz refletida, cuja origem não identificamos. Os espíritos voltaram às suas tumbas.
Esquecidos, eles de fato morreram.
( Às vezes acho que gostamos tanto de histórias de fantasmas pela esperança de que nos aconteça, após a morte, o mesmo que aconteceu com os fantasmas de meus antepassados: passem, nos velhos espelhos, a serem novamente percebidos e, assim, pela mágica da percepção alheia, voltem à vida. Alma penada seria, então, alma percebida. Alma intrometida novamente no mundo pela existência que os crédulos acharam razoável lhes dar. Alma penada é alma viva. Quanto às outras... bem, essas estão além da percepção, além do espelho, num mundo que, desde Kant, parece estar fechado para nós...).

Não me xinguem por tais reflexões! Quando não se é perfeitinho, refletir sobre o espelho pode ser mais divertido do que ver-se refletido nele.

Sandro Sell


4 comentários:

  1. Esse é pra pirar a batatinha!@
    Lucélia

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  2. Gostei muito do texto. O modo no qual percebemos o mundo é referente ao tempo/espaço no qual estamos inseridos. Creio que a maior referência que podemos fazer para não cairmos em relativismos e subjetivemos individuais acerca de tudo, é saber, q todos nós pertencemos ao gênero humano. Nós, enquanto seres humanos, temos invariavelmente uma percepção muito semelhante ao exterior. Nossos sentidos são iguais, claro que, as nossas experiências/sabedorias levam-nos a interpretar o que é trazido pelos sentidos. Exemplifico: Um ser humano médio ocidental foge da dor a qualquer custo. Um monge budista, treinado na dor, não a sente e sabe controlar seu corpo.
    Portanto como gênero humano, nós temos interpretações semelhantes a fim até de nos socializarmos: Imagine a balbúrdia se meu sentido dissesse o extremo oposto do dito pelo teu? Finalizando, creio que devemos pensar sempre com alteridade de pensamento, por mais que minha ideia sobre aquele ponto de vista seja vista com fundamentos – meus-, porquê tal pessoa não vê como Eu? Outro ponto, que me deparo, quando efetivamente penso em percepção, sempre imagino: O que realmente é real? Minha razão? Meus sentidos? Ambos? Quiçá a materialidade? Se for, apenas a materialidade, todos os médiuns já existentes são loucos em conjunto? Sei, apenas, que tudo isso é muito divertido.... abração!

    Cícero

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  3. Se dizes que a maioria é quem determina o que vemos então como pode que a mesma maioria tenha se transformado ao longo da história e começado a enxergar o mesmo que alguns poucos juravam enxergar? Muitos de nossos conhecimentos partiram de pensadores antigos gregos que hoje a própria ciencia das "universidades" tenta entende-los, mesmo que tenha passado tanto tempo e que tenham sido assim tão poucos estes visionários. Concluindo: muitos podem estar vendo a mesma coisa por puro comodismo e os que percebem algo mais serão, sempre foram, considerados "loucos". Einstein é um bom exemplo disso. Um abraço

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  4. Parabéns! Que sensibilidade e coerência textual, para não gerar ofensas nas mais variadas crenças! Percebi um "q" de "O mito da caverna"!

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