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domingo, 9 de maio de 2010

ABRIL DESPEDAÇADO

O sangue seco e amarelado, estampado na camisa sobre o varal ativa a reprodução incessante de um tempo cíclico de violência irrefreável. Uma lógica destruidora e mortífera destitui a possibilidade de afirmação do diálogo como estratégia de superação dos conflitos. Como adverte a sinopse do filme Abril Despedaçado, “Tonho, filho do meio da família Breves, é impelido pelo pai a vingar a morte do seu irmão mais velho, vítima de uma luta ancestral entre famílias pela posse da terra”.
Com efeito, “se cumprir sua missão, Tonho sabe que sua vida ficará partida em dois: os vinte anos que ele já viveu, e o pouco tempo que lhe restará para viver. Ele será então perseguido por um membro da família rival, como dita o código da vingança da região”. O pai afirma com autoridade implacável os deveres da tradição, inscrevendo na memória do filho a simbologia e os atos do ritual de violência: - “O sangue amarelou; Tonho: conhece a tua obrigação”. Diante da resistência do Menino, seu filho mais novo, que incita Tonho a não realizar a vingança, o pai imediatamente castra a sua palavra com um tapa violentíssimo e reafirma a sentença implacável: “preste atenção Menino, teu avô, teu tio, o teu irmão mais velho. Eles tudo<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> morreram por nossa honra e por essa terra. E um dia pode ser tu. Tu é um Breves. Eu também já cumpri minha obrigação. Se não morri, foi porque Deus não quis”. A fileira de fotografias na parede do casebre retrata que o ciclo louco da vingança interminável só apresenta novos personagens. Tudo não passa do eterno retorno do mal inaugural. A violência e o tempo aprisionados em si mesmos.
A violência da vingança possui rituais, símbolos e regras próprias. Ela apresenta uma lógica previsível e repetível, que exige incessantemente o sacrifício, reativa o ódio entre os adversários, expressa os limites da dívida e da cobrança. Novamente o pai, através de uma sentença implacável, pretende recordar os termos do talião: “Tonho, tu vai com cuidado ao amanhecer, e não se esqueça: tua obrigação é só com quem matou teu irmão. Negócio de homem pra homem. Olho no olho.” .... (

Trecho do livro Processo Penal Eficiente e Ética da Vingança de Alexendre Morais da Rosa e Thiago Fabres de Carvalho)

Por: Prof. Thiago Fabres


<!--[endif]--> <!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> No decorrer do artigo aquilo que estiver em itálico refere-se à transcrição literal das falas dos personagens de Abril despedaçado.
10.3.10

domingo, 18 de abril de 2010

O código de ética dos inglórios

O pedreiro Adimar Jesus da Silva, 40 anos, foi encontrado morto neste domingo numa cela da Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos (Denard) em Goiânia. Ele é réu confesso do assassinato de seis jovens em Luziânia em janeiro deste ano.
Pedreiro Admar de Jesus indicou aos policiais onde estavam os corpos
Segundo informações da delegacia, Adimar foi achado às 13 horas com um lençol amarrado ao pescoço, o que indicaria suicídio. Uma perícia técnica começou a ser feita às 14h30 no local. Adimar foi condenado em 2005 a 10 anos de prisão por atentado violento ao pudor, mas recebeu, em dezembro, o benefício da prisão domiciliar. Solto, cometeu os crimes em Luziânia.   (Fonte: site do IG)

Suicídio? Pode ser. Mas assim como o lençol indica a morte auto-infligida, o histórico da prisão de pessoas nessa situação indica outras possibilidades... Sobre isso já escrevi há alguns anos:

A vingança dos presos não serve à sociedade
É de conhecimento geral o destino que, nas prisões brasileiras, é reservado àqueles que cometeram certos crimes infamantes. Criminosos que molestaram sexualmente crianças ou assassinaram sua progenitora estão, amiúde, condenados à morte pelos colegas de prisão. A sociedade chega a dizer que os citados crimes são intoleráveis na “ética dos presos”. Mas tal conclusão deriva de um total desconhecimento do que seja ética e dos reais motivos dessas execuções. 
Ética não pode ser igualada a um código de vingança. Uma decisão ética é fruto de criteriosa reflexão acerca de como devemos orientar nosso comportamento diante dos outros e da sociedade. Ética é a busca de compatibilizar liberdades, reconhecer igualdades, tolerar diferenças e, por vezes, de impor limites ao agir nosso e alheio. Mas limites razoáveis, proporcionais, reciprocamente válidos.
O que esses presos fazem, assassinando seus colegas de crime, é apenas uma forma de dar vazão a sua violência característica e ao remorso que, eventualmente, manifestam pelo desgosto que, eles mesmos, causaram às suas famílias.
Seriam esses indivíduos os mais indicados para protegerem a integridade sexual das crianças e das mães de nossa sociedade? Mas - e aí está todo o drama - alguns dirão: “Pelo menos eles dão uma resposta à altura do mal que aqueles criminosos fizeram; se dependesse da lei, não lhes aconteceria nada.” Porém o que é a lei? Em tese, numa democracia, a lei deve refletir o consenso dos cidadãos acerca de como a vida individual e coletiva deve ser regulada. Nossas leis não nos foram dadas por Deus ou pela Natureza. Se desejarmos mudá-las, podemos. Portanto, se não estamos satisfeitos com a resposta que a lei dá a certos crimes, que nos organizemos para mudá-la. Pode levar tempo e o resultado não ser bem o esperado. Mas ainda é melhor do que transferir a atividade de responder a certos comportamentos criminosos a outros criminosos, cuja condição moral os desqualifica para a tarefa.
Os chamados “códigos de ética dos presos” nada mais são que a violência vingativa do ambiente carcerário somada à complacência cúmplice de uma parte da sociedade, que prefere delegar tarefas morais aos criminosos a agir como participativos cidadãos.
Fonte: SELL, Sandro. C. Comportamento social e anti-social humano. Florianópolis: Ijuris, 2006.
É claro que ainda não se sabe se foram presos, funcionários ou suicídio que terminou com a vida do acusado. O interessante é que isso - essa responsabilização eventual - passará batido. Já a concessão de progressão de regime pelo juiz (que mandou o Admar mais cedo para as ruas) será vista como algo fora de órbita. Mais grave é que os juristas oficiais acabam entrando nessa também. Na crítica à conduta legalmente possível do magistrado há o subtendido de que se não fosse sua decisão, Admar teria ficado mais uns 2 aninhos na cadeia e, por efeito natural desses dois aninhos, sairia bem, recuperado, livre de inclinações para o mundo do crime...
Fosse solto agora ou depois, daria provavelmente no mesmo. E apontar o dedo ao juiz,  sobretudo os cínicos juristas institucionais, como se esses laudos fossem confiáveis, como se fossem de seguimento obrigatório, ou protegessem de fato a sociedade em sede de pena (que não é medida de segurança!), é querer imputar a um sujeito isolado as mazelas do sistema penal. Se querem que o juiz preveja quem vai ou não delinquir, sugiro que a Mãe Diná faça os laudos. O resto é historinha para agradar a platéia inculta.

Sandro Sell

quarta-feira, 31 de março de 2010

A punição como diversão a despeito da dor

Durante o Império Romano, báraros vencidos, marginais e contestadores à ordem romana, enfim, os que rompiam as normas, eram levados aos anfiteatros para lutarem contra “semelhantes” ou leões, a fim de divertirem ou entreterem aquele microcosmo social representado nas arquibancadas (GUARNIELO, Norberto Luiz. Violência como espetáculo: o pão, o sangue e o circo.).

No Ancien Régime, em frente ao Hôtel-De-Ville, durante os séculos XIV e XVIII, uma multidão se acotovelava para assistir e vibrar com enforcamentos, esquartejamentos, torturas e incinerações. Após a Revolução Francesa a assistência também lá comparecia, mas então, para assistirem o funcionamento da guilhotina. Comenta-se, inclusive, que quando da primeira execução por este instrumento – de Nicolas JacquesPelletier – a multidão saiu decepcionada com a rapidez do processo. O jornal francês La Chronique referendou o caráter “humanitário” da nova ferramenta: "Ela não mancha a mão de um homem da morte de seu semelhante, e a prontidão com a qual abate o culpado está mais de acordo com o espírito da lei, que pode muitas vezes ser severa, mas que não deve jamais ser cruel".
    No Brasil, em 27 de março de 2010, após a leitura do veredito da condenação de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, por volta das 0h 20min, centenas de pessoas, entre elas crianças levadas pelos pais, aplaudiam a decisão, acendiam fogos de artifícios e, em êxtase, gritavam e cantavam: “eia, eia, eia, eles vão para a cadeia!!”, "Pega lá, pega lá, pega lá, pra nós linchar!!!”...
   A população comemora e sorri! Apesar de todas as vidas desgraçadas... Da mãe e de sua família; dos pais e dos filhos de Alexandre e Anna Carolina e, principalmente, de Isabella. O silêncio teria sido a melhor manifestação de respeito ao drama familiar que todos nós assistimos.

                                              O tempo passa e a sede por sangue é a mesma...


Postado por Felipe Moreira de Oliveira